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Psicoquilombologia valoriza saberes ancestrais no cuidado da saúde das mulheres quilombolas

O cuidado com a saúde mental das mulheres quilombolas também passa pelo reconhecimento dos saberes construídos dentro dos próprios territórios. Essa discussão esteve entre as temáticas abordadas no 12º Encontro Estadual de Mulheres Negras Quilombolas do Pará, durante a Roda: “Cuidar de quem cuida: saúde mental, autocuidado e bem viver das mulheres quilombolas”, realizada no segundo dia de atividades, com participação da psicóloga quilombola, Charlene Bandeira, do Espaço de Saúde Integral e Terapêutico Afrorreferenciado – AYA. 

A psicolombologia, desenvolvida por Charlene, parte da compreensão de que os territórios quilombolas produzem conhecimentos e formas próprias de cuidado, a partir de suas experiências, culturas e modos de vida. Nesse processo, os saberes das mulheres mais velhas, os conhecimentos sobre plantas e ervas medicinais, os benzimentos e outras práticas ancestrais também são entendidos como parte da saúde. “A psicolombologia reconhece esses saberes e reconhece as metodologias ancestrais de cuidado. Reconhece que a intuição das nossas mais velhas, que o sonho, que o benzimento é saúde”, destaca a psicóloga.

Banhos de cheiro, rezas, defumações e outras formas de cuidado transmitidas entre gerações também são práticas que não estão separadas da relação com a natureza, da espiritualidade, da vida comunitária e da maneira como as mulheres compreendem e cuidam do corpo, da mente e do território. A psicolombologia parte desse reconhecimento e questiona a ideia de que o cuidado precisa necessariamente seguir apenas os modelos tradicionais de atendimento e medicação.

Para Charlene, pensar o cuidado também significa questionar uma psicologia construída a partir de referências europeias e que, historicamente, desconsidera os conhecimentos produzidos pelos povos africanos e quilombolas. “Se psicologia significa o estudo da alma e todas nós que hoje estamos reunidas aqui descendemos de um povo que foi considerado sem alma e, portanto, passível de ser escravizado, uma ciência que é o estudo da alma só pode nos colocar no diagnóstico do adoecimento”, afirma ela.

Discussão que ganha ainda mais relevância quando se trata das mulheres quilombolas, que assumem diferentes responsabilidades dentro das comunidades e também estão à frente de processos de organização e defesa dos territórios. “Não é possível separar a saúde das comunidades dos conflitos que atingem seus modos de vida. A gente nunca está em paz, a gente está sempre no processo de guerra, ainda que pareça que a gente está muito festiva, que a gente está dançando e que a gente está comemorando, porque essa também é a nossa forma, do nosso corpo-território, de poder viver”, destaca Charlene.

Durante os três dias de encontro, as mulheres tiveram acesso ao atendimento psicológico individual, com psicólogas do Espaço AYA, em um consultório montado na beira do igarapé, em contato direto com a natureza, proporcionando um ambiente de escuta e acolhimento que considerasse não apenas as questões individuais, mas também as experiências vividas e a relação das mulheres com seus territórios.

A experiência vivida por Jaiara Vieira, do quilombo Boa Vista, no município de Oriximiná, ao ser atendida, reforçou a importância desse olhar. “Foi a primeira vez que eu me senti realmente vista. Era como se eu tivesse um olhar de mim para mim, porque eu estava tendo consulta com uma psicóloga negra quilombola. Eu não precisei explicar toda a minha árvore genealógica para que ela conseguisse entender as minhas dores”, relata ela.

Além disso, o contato com elementos da natureza durante o atendimento também fortaleceu esse processo de cuidado e autoconhecimento. “Estar próximo de elementos da natureza, como o igarapé, as árvores e ouvindo o canto dos pássaros, foi uma experiência muito marcante. Foi uma forma de conhecimento pessoal, de descobrir que sim, é possível ter dentro de uma sala de psicologia uma profissional que vai me entender do jeito que eu sou”, completa Jaiara.

Ao levar a psicolombologia para o debate no 12° Encontro de Mulheres Negras Quilombolas do Pará, a discussão colocou no centro conhecimentos que são desconsiderados pela ciência tradicional. Para as mulheres quilombolas, valorizar esses saberes também é uma forma de fortalecer o cuidado coletivo e o bem viver nos territórios.

Texto: Vitória Rodrigues 

Imagens: Anderson Borralho/Cintia Matos 

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