“Decidi disputar uma vaga na Alepa porque chegou a hora de aquilombar a política. Eu não quero apenas que falem sobre nós e nossos territórios: quero que uma mulher, liderança quilombola, esteja onde as decisões são tomadas e abrir portas para que outras e outros quilombolas também cheguem aos espaços de decisão.” O desabafo é de Vanuza Cardoso, conhecida como Vanuza Quilombola, única candidatura quilombola na disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa) nas Eleições 2026.
O cenário ocorre justamente quando o eleitorado quilombola brasileiro praticamente dobrou em relação às Eleições Municipais de 2024. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de eleitoras e eleitores autodeclarados quilombolas aptos a votar passou de 95.409, em 2024, para 188.371 em 2026, um crescimento de 97%.
Na região Norte, o eleitorado quilombola passou de 17.895 para 32.853 pessoas no mesmo período, um aumento de 14.958 registros, equivalente a aproximadamente 84%. O Nordeste concentra o maior número de eleitoras e eleitores quilombolas, enquanto o Sudeste apresentou o maior crescimento proporcional entre as regiões.
De acordo com o TSE, o crescimento precisa ser compreendido também a partir da ampliação e da qualificação do cadastro eleitoral. Informações como raça, identidade de gênero, etnia indígena, pertencimento a comunidades quilombolas ou tradicionais, língua falada e uso de Libras passaram a ser coletadas pela Justiça Eleitoral por meio de autodeclaração a partir de 2022. Por isso, a evolução dos números entre 2024 e 2026 reflete tanto o crescimento do eleitorado quanto a ampliação do preenchimento dessas informações no cadastro.
Eleitorado cresce, representação ainda é baixa
O aumento do número de eleitoras e eleitores quilombolas traz uma outra reflexão: o crescimento da presença desse segmento no eleitorado ainda não se traduz em representação proporcional nos espaços de poder.
No Pará, Vanuza é a única candidata quilombola que disputa uma cadeira na Assembleia Legislativa em 2026. Para a liderança, o desafio não está apenas em conquistar votos, mas em transformar o crescimento do eleitorado em organização política.
“Falta transformar voto em organização, consciência e representação política. Temos centenas de eleitores quilombolas, mas precisamos votar em quem conhece e defende nossos territórios e direitos. Quando nosso voto se unir em torno de um projeto, nossa força será decisiva”, pontua Vanuza.
A presença de uma candidatura quilombola no pleito também evidencia as barreiras enfrentadas por lideranças que decidem ocupar a política institucional. Para Vanuza, essas dificuldades começam antes mesmo das urnas.
“Elas começam no acesso aos recursos, às estruturas partidárias, às redes de apoio e às condições para fazer uma campanha competitiva. E estar em um partido considerado pequeno aumenta ainda mais esse desafio. Enquanto candidaturas tradicionais contam com estruturas políticas, econômicas e redes de influência consolidadas, nós precisamos disputar espaço, recursos e visibilidade quase sempre em condições muito desiguais”, afirma.
Mais candidaturas, mas ainda longe da representação
O cenário nacional também mostra que a presença quilombola nas eleições ainda é pequena diante do tamanho desse eleitorado. Segundo dados do TSE, as Eleições 2026 contam com 212 candidaturas de pessoas que se autodeclaram quilombolas, distribuídas entre diferentes cargos.
Do total, 124 disputam vagas para deputado ou deputada estadual, enquanto 80 concorrem à Câmara dos Deputados. Outras duas candidaturas disputam o Senado e duas concorrem às vice-governadorias.
A mobilização política dos movimentos sociais busca enfrentar justamente essa sub-representação. Uma das principais estratégias é o projeto Quilombo nos Parlamentos, iniciativa da Coalizão Negra por Direitos, que busca ampliar a presença de pessoas comprometidas com as pautas quilombolas nos espaços institucionais.
Em 2022, a iniciativa contribuiu para a eleição de parlamentares alinhados às pautas do movimento quilombola, entre eles oito deputados federais e 18 deputados estaduais.
Para Valéria Carneiro, diretora da Malungu, o crescimento do eleitorado quilombola também é resultado de um processo contínuo de conscientização política nas comunidades.
“Os dados sobre o crescimento do eleitorado quilombola foram impulsionados por um trabalho contínuo de conscientização e letramento político nas comunidades”, avalia.
A disputa pela Alepa
Ao todo, 411 candidatas e candidatos disputam as 41 cadeiras da Assembleia Legislativa do Pará nas Eleições 2026. Em meio a essa disputa, Vanuza Quilombola busca levar para o Parlamento estadual as demandas dos territórios quilombolas.
Aos 49 anos, Vanuza é natural do quilombo Abacatal, localizado na zona rural de Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém, a cerca de 12 quilômetros da capital. Liderança quilombola, ela já possui trajetória na política institucional: estreou nas urnas em 2016, quando disputou uma vaga na Câmara Municipal de Ananindeua pelo PRP, mas não foi eleita.
Agora, dez anos depois da primeira experiência eleitoral, volta às urnas com uma candidatura à Assembleia Legislativa e com uma proposta que ultrapassa a própria eleição: ampliar a presença quilombola nos espaços onde são definidas políticas públicas, direitos e investimentos que impactam diretamente os territórios.
“Eu não quero apenas que falem sobre nós e nossos territórios. Quero que uma mulher, liderança quilombola, esteja onde as decisões são tomadas e abrir portas para que outras e outros quilombolas também cheguem aos espaços de decisão”, reforça Vanuza.
Texto: Mayara Abreu/ comunicação Malungu
Imagens: Anderson Borralho/Comunicação Malungu