Mais de 500 mulheres participam do maior encontro de mulheres quilombolas do país no ano em que a Conaq completa 30 anos
“Comecei minha militância ainda criança. Renunciei minha adolescência. Renunciei festas. Renunciei namoro, me dedicando ao movimento. Não sei por quê, só sei que senti uma motivação para isso. E eu não tenho um pingo de arrependimento. Posso não ter uma estrutura de quem conseguiu subir na vida com bens materiais, mas sou feliz. E hoje nós temos aqui 500 mulheres quilombolas. Então hoje eu estou vendo o saldo do valor do meu salário.”
A declaração emocionada de Maria Rosalina dos Santos, coordenadora executiva da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e uma das fundadoras do movimento quilombola nacional, marcou a plenária “Conaq 30 anos: por território, produção, democracia e reparação – O Brasil também é quilombola”, realizada durante o III Encontro Nacional das Mulheres Quilombolas, em Brasília.
Considerado o maior encontro de mulheres quilombolas do país, o evento reúne mais de 500 participantes entre os dias 10 e 14 de junho, com representantes dos 24 estados brasileiros que possuem comunidades quilombolas autorreconhecidas, além de delegações de sete países. O Pará participa com uma comitiva de mais de 20 mulheres quilombolas.
Com o tema “Mulheres Quilombolas na defesa por justiça climática, por reparação e democracia: somos o começo, o meio e o começo!”, o encontro também celebra os 30 anos da Conaq e tem como objetivo fortalecer a incidência política das mulheres quilombolas nos espaços nacionais e internacionais, ampliar estratégias de enfrentamento às violências de gênero e construir ações coletivas diante dos impactos das mudanças climáticas nos territórios.
A programação reúne debates políticos, atividades culturais e iniciativas voltadas ao fortalecimento da economia quilombola. Entre elas está a Feira de Saberes Tradicionais, que reúne artesãs, agricultoras, raizeiras, benzedeiras e outras guardiãs de conhecimentos ancestrais de diferentes regiões do país.
Durante a abertura, que contou com a participação da jornalista Maria Júlia Coutinho, a Conaq lançou o Plano Emergencial para Mulheres Ameaçadas em seus Territórios, acompanhado do lançamento do livro e da exibição do documentário institucional CAFUNÉ, dirigido por Gabriela Barreto.
A iniciativa foi criada para oferecer proteção e apoio a lideranças quilombolas que enfrentam situações de violência e ameaças relacionadas à defesa dos territórios. O plano prevê ações emergenciais de curto prazo voltadas à articulação e incidência política dessas mulheres.
Produzido a partir de oficinas realizadas com mulheres quilombolas de diferentes regiões do Brasil, o documentário, com 23 minutos de duração, evidencia a força das redes de solidariedade e a importância do cuidado como prática política diante das múltiplas formas de violência enfrentadas pelas mulheres quilombolas.
Nesta quarta-feira (11), segundo dia de programação, também foi lançada a publicação “Vozes Quilombolas: Mulheres em Defesa do Clima”. O material reúne reflexões e experiências de mulheres que vivenciam, em seus territórios, os efeitos das transformações ambientais e os desafios para a preservação dos biomas onde vivem.
Ao relembrar a trajetória de construção da organização, Rosalina destacou o protagonismo das bases quilombolas na consolidação da Conaq.
“Eu preciso que as mulheres que estão nesta plenária saiam com sentimento de pertencimento. Quantas vezes dormi em rodoviária para construir isso que está acontecendo hoje. A Conaq não nasceu centralizada em Brasília. Ela nasceu de estado em estado para fortalecer a todos, tudo na base da partilha”, afirmou.
A programação do III Encontro Nacional das Mulheres Quilombolas segue até o dia 14 de junho e inclui exposições fotográficas, mostras audiovisuais, apresentações culturais e desfile de moda afro-quilombola.
O encontro teve sua primeira edição realizada em 2014 e, desde então, consolidou-se como um dos principais espaços de articulação, formação política e fortalecimento das mulheres quilombolas no Brasil.
Para acompanhar a cobertura completa e saber mais sobre as atividades do encontro, acompanhe as redes sociais da Conaq.
Texto e imagens: Mayara Abreu/Comunicação Malungu