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Super El Niño pode ser um dos mais intensos da história e expõe falta de preparação dos governos para enfrentar seus impactos

Diferentemente do que apontavam os boletins anteriores, a atualização divulgada na última quinta-feira (9) pelo Centro de Previsão Climática (CPC), dos Estados Unidos, ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), elevou para 81% a probabilidade de o El Niño atingir a categoria de “muito forte” entre outubro e dezembro.

Em maio, embora já houvesse indicativos de um evento intenso, ainda existiam incertezas sobre sua força. Agora, segundo a NOAA, há 97% de probabilidade de que o fenômeno persista até meados de 2027. Caso essas projeções se confirmem, o chamado Super El Niño poderá se tornar um dos eventos mais intensos registrados desde o início das medições climáticas, há cerca de 150 anos.

No Pará, onde os impactos das grandes estiagens costumam ser severos, o avanço das previsões acende um alerta. Apesar da gravidade do cenário e dos efeitos já conhecidos do fenômeno sobre a Amazônia, o governo estadual ainda não apresentou um plano específico de enfrentamento ao Super El Niño. As ações anunciadas até o momento concentram-se no monitoramento das condições climáticas e no combate aos incêndios florestais, sem detalhar medidas voltadas para áreas como abastecimento de água, segurança alimentar, transporte fluvial, agricultura familiar e proteção das populações mais vulneráveis.

A situação se repete em boa parte da Amazônia Legal. Levantamento da reportagem mostra que Acre, Amapá, Mato Grosso, Rondônia, Roraima e Tocantins também não apresentaram planos específicos de enfrentamento aos impactos do fenômeno. O Amazonas é, até o momento, o estado que adotou a medida preventiva mais abrangente. O governo decretou estado de emergência climática ambiental por 180 dias, com possibilidade de prorrogação.

Diante do agravamento das previsões, o governo federal determinou que estados e municípios apresentem, no prazo de até 30 dias, seus planos e prioridades para enfrentar os efeitos do El Niño. A medida, assinada pelo ministro do Meio Ambiente em exercício, João Paulo Capobianco, busca evitar a repetição do cenário registrado em 2024, quando o país enfrentou a seca mais severa dos últimos 70 anos na Amazônia, registrou recordes de incêndios florestais e viveu o ano mais quente desde o início das medições.

A falta de planejamento preventivo preocupa especialistas porque os impactos do fenômeno são conhecidos e podem ser antecipados. Ainda assim, grande parte das respostas do poder público continua concentrada em ações emergenciais, adotadas quando os prejuízos já estão instalados, em vez de políticas permanentes de adaptação às mudanças climáticas.

O El Niño é um fenômeno climático natural provocado pelo aquecimento acima da média das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação dos ventos e interfere no regime de chuvas em diversas regiões do planeta. Na Amazônia, os principais efeitos costumam ser a redução das chuvas, o aumento das temperaturas, a queda do nível dos rios, dificuldades de abastecimento, prejuízos ao transporte fluvial e o crescimento do risco de queimadas e incêndios florestais.

Embora seja um fenômeno natural, seus impactos vêm sendo potencializados pelo aquecimento global. O aumento da temperatura média do planeta intensifica eventos extremos, tornando secas, ondas de calor e chuvas intensas cada vez mais frequentes e severas. Além dos impactos ambientais e sociais, o Super El Niño também deve provocar reflexos diretos na economia, especialmente sobre a produção agrícola e o preço dos alimentos.

A economista quilombola Josiane Cardoso Ferreira explica que produtos essenciais da alimentação dos brasileiros estão entre os mais vulneráveis às alterações climáticas.

“Produtos como hortaliças, frutas, feijão, milho e arroz estão entre os mais sensíveis às variações do clima, seja por excesso de chuvas, seja por longos períodos de seca. Além disso, o milho é um importante insumo para a alimentação animal, de modo que sua alta também pode elevar os custos de produção de carnes, leite e ovos. Do ponto de vista econômico, quando a produção é reduzida e a demanda permanece relativamente estável, os preços tendem a subir, contribuindo para a inflação dos alimentos e afetando principalmente as famílias de menor renda, que destinam uma parcela maior do orçamento à alimentação.”

Segundo a economista, os agricultores familiares estão entre os segmentos mais vulneráveis aos efeitos do fenômeno, já que dependem diretamente da regularidade das chuvas para garantir a produção, a renda e o abastecimento local. Para ela, comunidades quilombolas e outros povos tradicionais também sofrem de forma desproporcional os efeitos das mudanças climáticas.

“Como economista e mulher quilombola, considero que essas estratégias também precisam incorporar uma perspectiva de justiça climática. Comunidades quilombolas, povos tradicionais e agricultores familiares estão entre os primeiros a sentir os efeitos das mudanças climáticas, mas muitas vezes são os últimos a acessar políticas públicas. Por isso, os planos de prevenção devem prever ações específicas para esses grupos, como o fortalecimento da agricultura familiar, investimentos em abastecimento de água, assistência técnica, proteção da renda, acesso ao crédito e participação efetiva dessas comunidades na construção das políticas públicas. Preparar o país para enfrentar eventos climáticos extremos não significa apenas responder às emergências, mas investir em adaptação, reduzir desigualdades históricas e fortalecer a resiliência dos territórios e da economia brasileira” , finaliza.

Texto:Mayara Abreu/Comunicação Malungu

Imagem: Anderson Borralho/Comunicação Malungu 

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