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Miss Baionense é alvo de racismo após vencer concurso: “Eu só estava me divertindo, fazendo algo que eu amo”

Poucas horas após vencer o concurso Miss Baionense, realizado durante a Semana Estudantil Baionense (SEB), no município de Baião, a quilombola Railene Gomes Pinto passou a ser alvo de ataques racistas nas redes sociais. Em uma publicação a jovem foi comparada a um urubu em uma montagem acompanhada da frase: “Só falta avuar”.

Aos 27 anos, Railene é natural da comunidade quilombola Vila de Calados e já conquistou diversos concursos de beleza na região. A vitória no Miss Baionense representava a realização de um sonho construído ao longo de meses de preparação.

“Eu senti uma tristeza muito grande. Eu só estava me divertindo, fazendo algo que eu amo. Nunca imaginei que passaria por isso. É uma dor que não desejo para ninguém”, relata.

Segundo a jovem, os ataques atingiram diretamente sua autoestima e transformaram um momento de conquista em um período de sofrimento. “Eu não queria sair de casa. Fiquei com vergonha. Não consegui nem comemorar a minha vitória”, conta.

A publicação que motivou a denúncia mostrava uma montagem com a fotografia da miss e, acima dela, a imagem de um urubu de asas abertas, acompanhada da expressão “Só falta avuar”, em uma associação racista direcionada à jovem quilombola. Railene registrou um boletim de ocorrência. O suspeito já foi identificado.

De acordo com informações obtidas pela reportagem, uma amiga da vítima entrou em contato com o autor da publicação para alertá-lo de que o conteúdo era racista. Em resposta, ele tentou justificar a postagem afirmando que a comparação fazia referência apenas à capa utilizada pela miss durante o desfile.
Em nota, o Club Cumbucão, agremiação representada por Railene no concurso, informou que está prestando total apoio jurídico à vencedora e repudiou os ataques racistas.

O Miss Baionense integra a programação da Semana Estudantil Baionense e reúne representantes de escolas, clubes e equipes locais, sendo considerado um dos concursos de beleza mais tradicionais e aguardados da região do Baixo Tocantins. “Foram meses de preparação desde que recebi o convite. Me dediquei inteiramente a esse concurso”, afirma Railene.

Apesar da violência sofrida, a jovem destaca que encontrou apoio na família, nos amigos e, principalmente, em sua comunidade quilombola, que a ajudou a enfrentar o episódio. Agora, ela espera que sua história fortaleça outras mulheres negras e quilombolas a ocuparem os espaços que desejarem.

“Essa vitória vai muito além de um pódio. Ela é a prova de que nós, mulheres negras quilombolas, podemos chegar onde quisermos e ocupar qualquer espaço.”

Com o registro do boletim de ocorrência, o caso passou a ser investigado como crime de racismo. A apuração ocorre com base na Lei nº 14.532/2023, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que equiparou a injúria racial ao crime de racismo. Desde então, condutas dessa natureza passaram a receber o mesmo tratamento jurídico do crime de racismo, que é inafiançável e imprescritível, com previsão de pena de reclusão.


Texto: Mayara Abreu/Comunicação Malungu

Imagens: Reprodução 

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