Malungu

A violência não nasceu no nosso berço: no Agosto Lilás, Malungu chega ao Marajó para discutir masculinidades

Terceira roda da iniciativa aprofunda o debate sobre mulherismo e berços civilizatórios, refletindo sobre a construção histórica das violências de gênero e sobre formas ancestrais de cuidado, organização e proteção da vida.

No mês em que o Brasil amplia o debate sobre a prevenção e o enfrentamento às violências contra as mulheres, a Malungu dá continuidade à série de formação “Enfrentamento à violência a partir da atuação das masculinidades”, iniciativa pioneira no movimento negro e quilombola. Pela primeira vez, a formação foi realizada dentro de um quilombo, na comunidade Boa Vista, em Salvaterra, no arquipélago do Marajó, reunindo homens e mulheres para refletir sobre a construção social das masculinidades e das relações de gênero e sobre os caminhos possíveis para prevenir a violência nos territórios.

Realizada durante o Agosto Lilás, a terceira formação propôs uma abordagem que vai além do debate sobre as violências já ocorridas. A discussão partiu da educação e da forma como homens e mulheres são socialmente formados, passando pelos privilégios produzidos pelo patriarcado, pelo machismo e pelas estruturas coloniais que ainda atravessam as relações em comunidade.

A proposta é compreender que as masculinidades não são o alvo do enfrentamento, mas que é necessário questionar os modelos de masculinidade construídos a partir de valores patriarcais e coloniais. A reflexão também buscou afastar a ideia de uma disputa entre homens e mulheres, defendendo uma construção coletiva para transformar relações desiguais.

“Precisamos saber onde queremos estar localizados psicologicamente: ou é no berço de um homem machista europeu ou quilombola africano. A gente não pode pegar os valores do berço norte e aceitar que eles estejam vivos dentro da nossa comunidade. O patriarcado mata o matriarcado. As nossas comunidades precisam valorizar a permanência e a existência da matripotência. A gente precisa lutar e garantir essa existência para que o quilombo exista. O quilombo não vai existir com machismo e patriarcado. Isso não é quilombo”, afirmou Leonardo Lázaro Faislon, educador, pesquisador e liderança atuante nas pautas de relações étnico-raciais e um dos mediadores da formação.

Para Leonardo, enfrentar a violência também significa proteger o modo de vida e os valores que sustentam os territórios quilombolas. “Como é que a gente pode pensar num quilombo com misoginia, com colonialismo? Não combina. Toda vez que a gente permite que as coisas ruins e negativas que têm na cidade entrem, a gente está matando o quilombo. Defender um território quilombola não é só levar o peito para tomar bala da polícia”, acrescentou.

Mulherismo africano e luta comunitária

Outro eixo da formação foi o Mulherismo Africano, apresentado pela psicóloga quilombola e idealizadora do Espaço de Saúde Integral AYA. A perspectiva foi abordada como uma possibilidade de pensar o enfrentamento ao patriarcado a partir da comunidade, sem transformar as relações entre homens e mulheres em uma disputa.

“O Mulherismo Africano propõe uma luta comunitária. Essa luta diz que homens e mulheres devem lutar juntos, não um contra o outro. A nossa luta não é de mulheres contra homens. A nossa luta é de mulheres e homens quilombolas contra o patriarcado. A gente acredita na educação”, destacou.

A formação também chegou à Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Quilombola Boa Vista. A atividade partiu do entendimento de que a prevenção das violências começa também pela educação e pela transformação das formas como crianças e jovens aprendem a construir suas relações.

A terceira edição da formação de oito encontros reuniu a equipe técnica da Malungu e quilombolas das comunidades de Salvaterra, que passam a atuar como multiplicadores da discussão em seus espaços de convivência. A iniciativa busca fortalecer caminhos coletivos de proteção à vida das mulheres e ampliar a participação dos homens na prevenção e no enfrentamento às violências de gênero.

Conduzida pela Coordenação de Gênero da Malungu, a série integra o projeto Mulheres por uma Amazônia Justa e conta com parceria do Ministério das Mulheres, da GIZ e da Secretaria de Estado das Mulheres (SEMU).

Texto e imagens: Mayara Abreu/Comunicação Malungu

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