Malungu

Pioneira no movimento quilombola na pauta das masculinidades, Malungu lança série de formações para o enfrentamento à violência de gênero.

A Coordenação das Associações Quilombolas do Estado do Pará -Malungu iniciou, nos dias 14 e 15, uma série de oito rodas de conversa sobre o papel das masculinidades no enfrentamento à violência contra mulheres. A iniciativa, conduzida pela coordenação de gênero, integra o projeto Mulheres por uma Amazônia Justa e reúne parcerias com o Ministério das Mulheres, a GIZ e a Secretaria de Estado das Mulheres (SEMU).

O objetivo dos encontros é construir caminhos coletivos de proteção à vida das mulheres, incluindo homens no debate sobre as violências de gênero. “Ao construir esse momento, a gente percebeu o quanto o nosso povo quilombola precisa discutir as violências que atravessam as mulheres e as que atravessam os homens também, a partir de um sistema imposto na sociedade”, afirma Carlene Printes, coordenadora de gênero da Malungu.

A iniciativa acontece em um contexto de crescimento dos índices de violência no estado. Segundo o boletim Elas Vivem: a urgência da vida, da Rede de Observatórios da Segurança, os crimes contra mulheres cresceram 76% no Pará entre 2024 e 2025, passando de 388 para 683 casos em um ano.

Ao todo, na região Norte, foram contabilizadas 138 mortes de mulheres, incluindo feminicídios, homicídios e transfeminicídios. O Pará também apresentou aumento de 167,4% nos casos de violência sexual, com 62,8% das vítimas tendo entre 0 e 17 anos. As informações são baseadas em monitoramento diário de ocorrências divulgadas na mídia. Já dados da SEMU apontam que, até março de 2026, foram registrados 16 feminicídios no estado.

Apesar dos números, mulheres quilombolas ainda não aparecem de forma específica nas estatísticas oficiais, o que dificulta a formulação de políticas públicas direcionadas. A ausência de recorte persiste mesmo após a inclusão da população quilombola no Censo 2022 do IBGE.

Para Luciano Ramos, especialista na pauta das masculinidades, o enfrentamento à violência passa pela transformação das relações de gênero desde a infância, sendo necessário investir na formação de meninos e homens. “Um dos principais desafios é trabalhar a educação de meninos desde a primeira infância, para que compreendam as violências de gênero como crimes e construam relações baseadas na igualdade”, explica.

A proposta, pioneira no movimento quilombola, busca articular gênero e raça como dimensões inseparáveis no combate às desigualdades. A estratégia aposta no diálogo entre homens e mulheres como ferramenta de transformação social dentro dos territórios.

“É um desafio colocar homens e mulheres na mesma roda para enfrentar esse problema, mas percebemos, nesse primeiro encontro, que é possível e que estamos no caminho certo”, conclui Carleme Printes.

Texto: Mayara Abreu/Comunicação Malungu 

Fotos: Anderson Borralho/Comunicação Malungu

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