O avanço da violência contra as mulheres no Pará tem reforçado a necessidade de estratégias que atuem não apenas na proteção das vítimas, mas também na prevenção das violências. É nesse contexto que a Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará (Malungu) desenvolve uma iniciativa pioneira no movimento quilombola: uma série de rodas de conversa sobre masculinidades positivas, voltada à reflexão sobre os papéis sociais dos homens e sua responsabilidade na construção de relações livres de violência.
A formação, conduzida pela Coordenação de Diversidade e Gênero da Malungu, integra o projeto Mulheres por uma Amazônia Justa, realizado em parceria com a agência alemã de cooperação internacional GIZ (Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit), apoio do Ministério das Mulheres e da Secretaria de Estado das Mulheres (SEMU). As duas primeiras etapas reuniram a equipe técnica e administrativa da organização e servirão de base para a próxima fase, que levará a discussão aos territórios quilombolas, começando pelo município de Salvaterra, no Arquipélago do Marajó.
A iniciativa surge em um cenário preocupante. De acordo com o relatório Elas Vivem: a urgência da vida, da Rede de Observatórios da Segurança, o Pará registrou 757 casos de violência contra mulheres em 2025, tornando-se o terceiro estado com maior número de ocorrências entre os nove monitorados pela pesquisa. O estado também apresentou o maior crescimento percentual entre os estados analisados, com aumento de 76% em relação a 2024, quando foram contabilizados 430 casos.
O levantamento, elaborado a partir do monitoramento diário de casos divulgados pela imprensa dos estados do Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo, também aponta crescimento expressivo da violência sexual, especialmente contra crianças e adolescentes. Na maioria das ocorrências, os agressores eram pessoas próximas das vítimas.
Dados da Secretaria de Estado das Mulheres mostram ainda que, até março de 2026, foram registrados 16 feminicídios no Pará. Apesar da gravidade dos indicadores, mulheres quilombolas continuam invisibilizadas nas estatísticas oficiais, já que a maioria dos levantamentos não apresenta recorte étnico-racial. Para a Malungu, essa ausência contribui para a subnotificação e dificulta a formulação de políticas públicas voltadas às especificidades dos territórios.
Nas comunidades quilombolas, as barreiras de acesso à rede de proteção tornam esse cenário ainda mais complexo. Em muitos casos, mulheres precisam percorrer longas distâncias de barco até a sede do município para registrar uma ocorrência ou acessar serviços especializados. Em outros, sequer há sinal de telefonia ou internet para solicitar ajuda, tornando a prevenção uma estratégia ainda mais necessária.
Enquanto grande parte das políticas de enfrentamento à violência concentra esforços no atendimento às vítimas, a proposta da Malungu aposta na prevenção, promovendo o diálogo com homens sobre cuidado, responsabilização, igualdade de gênero e relações não violentas.
“O nosso maior objetivo é discutir as masculinidades como estratégia de proteção e cuidado com a vida das mulheres. Esse projeto foi pensado com muito carinho para fortalecer o cuidado com as mulheres quilombolas que vivem nos nossos territórios. Muitas políticas públicas ainda não chegam às comunidades e, quando chegam, não conseguem atender plenamente às nossas necessidades. Para uma mulher que precisa viajar até 15 horas de barco para denunciar uma violência, prevenir continua sendo o melhor caminho”, afirma Carlene Printes, coordenadora de Diversidade e Gênero da Malungu.
Para Luciano Ramos, especialista sobre masculinidades não violentas e mediador no projeto, a segunda etapa da formação aprofunda o debate sobre masculinidades quilombolas, considerando as especificidades dos territórios e a diversidade de experiências entre meninos, jovens e homens.
“Agora estamos aprofundando a discussão sobre masculinidades quilombolas, olhando para os territórios onde vamos atuar na próxima fase. Nosso objetivo é dialogar com diferentes grupos de meninos, rapazes e homens, reconhecendo a diversidade de gênero e de sexualidades e construindo, coletivamente, novas formas de ser homem que estejam comprometidas com o cuidado, o respeito e a proteção da vida das mulheres.”
A próxima etapa do projeto acontecerá diretamente nos territórios quilombolas, começando por Salvaterra, no Marajó. A expectativa é ampliar o diálogo com as comunidades e fortalecer estratégias locais de prevenção às violências de gênero, envolvendo homens como aliados na prevenção, poder, cuidado, responsabilização e igualdade de gênero.
Texto: Mayara Abreu/Comunicação Malugu
Imagens: Anderson Borralho/ Comunicação Malungu